Arquivo do mês: maio 2009

O fim do mundo é realmente lindo

É praticamente impossível não cair no lugar comum quando se fala de Ushuaia: aqui é o fim do mundo, a cidade mais austral do planeta. É só pegar um mapa para constatar. Assim que o avião se aproximou da cidade (sim, sim, eu voei de El Calafate até aqui) já pude ver a beleza das montanhas brancas encontrando o mar. O mar é todo recortado por ilhas e canais, sendo o Beagle o mais famoso deles. De novo, como fiz em todas as cidades pelas quais passei, acabei ficando mais tempo. Meus dois dias de reserva no hostel viraram cinco.

Mas se engana quem pensa que Ushuaia é só a cidade do fim do mundo. De fato, é isso o que mais alimenta o turismo, mas para todo lugar que se olha há alguma coisa bonita para se ver. O Parque Nacional Terra Del Fuego, por exemplo, foi um dos lugares mais fascinantes que visitei até hoje. Depois de caminhar por trilhas e estradas cheias de gelo, onde não escorregar é quase impossível, eu e meus companheiros de Ushuaia (os argentinos Lucas e Federico e a sueca Monia) chegamos a uma enseada onde não havia ninguém, somente o som da água batendo nas pedras, dos pássaros cantando e do ventinho gelado batendo nas nossas roupas. Mais um pouco e estaríamos realmente no fim do mundo, onde acaba a Ruta 3 (estrada que corta o país de norte a sul). Mais uma impressionante paisagem, daquelas que, mesmo com o frio, você tem vontade de ficar admirando por horas e horas. Ainda fiz um passeio aos Lagos Escondido e Fagnano, impressionante sensação térmica de 20 graus negativos, e pelo canal Beagle. Aí se vai de barco, e tivemos o privilégio de ser acompanhados pelos divertidos leões-marinhos. É nessas horas que a gente se sente realmente vivo.

 (por problemas de conexão, não serão publicadas fotos neste post…talvez uma outra hora).

Curiosidades

– Durante as primeiras décadas do século XX, havia um presídio em Ushuaia. Ele foi construído em 1902 e pouco a pouco os presos mais perigosos da Argentina foram sendo mandados para lá. O lugar foi escolhido devido ao isolamento. Era praticamente impossível fugir. Apenas um preso conseguiu a façanha, mas foi capturado 23 dias depois no Chile. Outros tentaram atravessar o Canal Beagle a nado e, obviamente, morreram. O lugar foi desativado em 1947 pelo presidente Perón.

– O presídio ainda existe, foi restaurado e hoje abriga um museu que conta não só a história dos anos de funcionamento, como a história marítima da região.

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A tranquila El Calafate

Passei uma semana em El Calafate (incluindo aí a viagem a El Chaltén). É uma cidadezinha bem simpática. Tem hoje os seus cerca de 25 mil habitantes e a vida deles todos gira em torno do turismo. Durante a temporada (que vai de agosto a abril), a cidade de enche ainda mais de turistas e de moradores. Os dias aqui foram gelados, lindos e bem calmos. Minha estadia foi fechada com um passeio de jipe por uma montanha, com direito a neve e bife no disco feito pelo motorista do 4×4.

Algumas coisas interessantes sobre a cidade:

– O supermercado daqui não distribui mais sacolas plásticas aos clientes. Quem fizer compras tem que levar sua própria sacola de pano ou comprar as de papel, que são vendidas a 0,10 pesos cada uma. Eu esqueci deste detalhe e fui fazer umas comprinhas. Tive que voltar para o hostel carregando uma baita caixa de papelão com os produtos (o hostel fica na parte de cima da cidade). 

a cidade vista bem de cima
a cidade vista bem de cima
rua do hostel

rua do hostel

 – Tenho certeza que em El Calafate existem mais cachorros do que moradores. Eles são enormes e vivem nas ruas. Estão, literalmente, por todas as partes. É realmente impressionante. Conversando com um local, descobri que boa parte deles é deixada nas ruas quando a temporada acaba, pois muitas pessoas saem da cidade nessa época.

– Há muitos restaurante e barzinhos por aqui, mas como a cidade é turística, os preços são altíssimos. Um muito legal que fui foi o Borges e Alvarez, um livro-bar. Sente, peça um café ou uma taça de vinho e aproveite para ler um dos muitos livros que eles têm por lá. E ainda pratique o espanhol.

– Os hostels são muitos. Eu fiquei em dois, que ficam na parte alta da cidade: o America Del Sur e o Marcopolo inn. Fora de temporada você paga duas noites e ganha uma. As diárias dos dois são 40 pesos em quarto coletivo incluindo o café da manhã.

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Não foi dessa vez

Acordei ansiosa para a caminhada do dia e me sentindo bem melhor depois de uma ótima noite de sono. O tempo estava ruim quando saímos para o trekking ao Fitz Roy. Garoava e não se podia ver muita coisa pela frente. No começo da subida da trilha começou a nevar e foi assim por todo o percurso. Foi o que valeu o passeio: ver os caminhos e as árvores cheios de neve. Eu nem podia acreditar que estava no meio daquilo tudo. Fazendo uma trilha pelas montanhas, com frio, vento, neve e uma paisagem surreal. As duas horas de caminhada nos levaram ao mirador do Fitz Roy, onde supostamente veríamos a tão imponente montanha. Bom, não foi dessa vez. Tudo estava completamente coberto pela névoa e o que sobrou foi nos divertirmos fazendo um boneco de neve. Não achamos conveniente seguirmos pela trilha até mais perto da montanha mais alta da região. Havia muita neve pelo caminho e o vento cortava nossas peles. Meu queixo começou a congelar e minhas mãos viraram duas pedras de gelo. Fiquei mais protegida porque tinha uma capa de chuva e botas impermeáveis. A Ninoska, coitada, resolveu fazer a trilha de AllStar. Nem digo o que aconteceu com os pés dela. Caminhar pela neve foi uma experiência legal, mas terei que voltar a El Chaltén. Agora no verão.

neve no caminho para o mirador fitz roy

neve no caminho para o mirador fitz roy

o mirador...não se podia mirar nada

o mirador...não se podia mirar nada

eu e ninoska com o boneco de neve

eu e ninoska com o boneco de neve

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Rumo a El Chaltén

El Chaltén é uma vilazinha a 230 quilômetros de El Calafate, incrustada entre as montanhas que fazem fronteira com o Chile. É aqui que está uma das maiores montanhas da Argentina, o Cerro Fitz Roy (3.405m), que fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares. Essa, sem dúvida, é a maior atração do lugar. Foi por isso que decidi conhecer El Chaltén. Eu, Ninoska e Sebastian, dois canadenses que conheci no America Del Sur (o hostel de El Calafate), acordamos cedo naquela manhã gelada e embarcamos no ônibus que leva os turistas até o povoado.

Um conselho: jamais beba na noite anterior a uma viagem. Especialmente vinho e, principalmente, se você for fazer um trekking de três horas pelas montanhas. Boa comida, boa companhia – os dois canadenses e oito americanos – e bebemos algumas garrafas de vinho. Resultado: quase me atrasei para pegar o ônibus na manhã seguinte e passei o dia super bem comigo mesma (ah, essa frase é ótima, não?). Bom, com ressaca e tudo, deixei minhas coisas no hostel de El Chaltén e rumei com Ninoska e Sebastian para uma das muitas trilhas que existem na região. Escolhemos ir ao mirador do Cerro Torre, que fica a 1h30 de caminhada. Já tínhamos sido orientados pelo guia do parque para calcularmos bem o tempo de caminhada, pois não se enxerga mais nada após as seis da tarde. Ele também nos falou sobre a possibilidade de neve pelo caminho e sobre seus perigos. A neve pode cobrir os senderos e se perder se torna muito fácil.

Lá fomos nós. O tempo não estava dos melhores e, no meio do trekking, uma surpresa: começou a nevar! A primeira neve da minha vida. A paisagem é indescritível. Mesmo com o tempo nublado, pudemos ver lá do alto as montanhas que cercam El Chaltén e o rio que corta a região. A vegetação é muito peculiar, me senti no filme The Lord of the Rings. Depois de 1h30, chegamos ao nosso destino e eu, mesmo com a lembrança da noite anterior e com o joelho estragado, fui recompensada pela paisagem. No dia seguinte, o Fitz Roy nos esperaria.

 

montanhas ao fundo

montanhas ao fundo

el chaltén visto de cima

el chaltén visto de cima

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Imensidão azul

As minhas 35 horas de viagem foram 100% compensadas quando meus olhos encontraram aquela imensidão azul em uma das margens do Lago Argentino. Esqueci o cansaço e o frio e tudo o que eu já vi até hoje pareceu pequeno perto do glaciar que estava bem ali, na minha frente. Dentro de alguns minutos eu iria também caminhar sobre ele. Fica difícil descrever tanta beleza, acho que só quem já esteve frente a frente com ele pode ter alguma noção.

fantástico

fantástico

O Glaciar Perito Moreno fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, que tem esse nome porque quase metade dele é composta de glaciares (é lá que fica o segundo maior campo de gelo do mundo, só perdendo para a Antártida. São 13.000 km2 e 350 km de extensão). O Perito Moreno é um dos 47 grandes glaciares do parque, tem uma superfície de 257 km2 e largura de 4 km, onde ocorrem desprendimentos constantes. Quando algum pedaço de gelo se solta, é um barulho incrível. O glaciar tem uma coloração azul, resultado do contraste entre a luz e o gelo. Conforme a posição do sol, ele pode ter milhares de tons diferentes. O tempo ajudou e pude ver diversos azuis.

DSC02737

 O trekking foi surreal. É preciso colocar grampos no sapato para que se possa caminhar sobre o gelo e não escorregar. Ainda assim há possibilidade de cair. A lição número um para evitar quedas é cravar os pés com força no gelo e mantê-los sempre bem separados. O negócio é cansativo, pois o gelo é muito irregular, há muitas subidas e descidas. Tudo é feito com a supervisão de guias. Eu e o grupo que estava comigo pudemos passar por dentro de um túnel de gelo. Sensacional, apesar de ter me custado uma leve torção no joelho e mãos completamente molhadas, pois é preciso apoiar pés e mãos nas laterais do túnel para não cair na água gelada. O mini trekking terminou com uma confraternização regada a wisky com gelo do glaciar e alfajores da melhor qualidade. Nada de garoto (os chocolates, eu digo). Depois, ainda tive direito a um almoço num refúgio com vista para aquela grandiosidade toda. Era hora de ir ao mirador para se ter uma visão mais completa de tanta beleza.

com os grampos

com os grampos

DSC02765

– É possível fazer diversos passeios dentro do Parque Nacional Los Glaciares. O ingresso para entrar custa 60 pesos e vale por dois dias.

– As agências vendem pacotes para mini trekking, navegação pelos glaciares, caminhada e visitação ao mirante. Pode-se agendar direto nos hostels. Eu chequei e eles não cobram taxas extras. O mini trekking custa 330 pesos.

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Uma vila com nome de planta

 

Calafate: é um arbusto que nasce na região e que dá frutos que viram geléias e doces. Ainda não provei. Assim que levantei, uma surpresa: o dia não poderia ter amanhecido mais lindo e a vista do hostel não poderia ser melhor: pode-se ver a cidade toda, o lago e os Andes branquinhos ao fundo. Frio? Clara. Mas quem liga para isso com tanta beleza ao redor? Era o dia perfeito para um passeio a cavalo. Martín, um gaúcho muito simpático nascido em Corrientes – uma das 23 províncias argentinas – guiou o grupo pela paisagem patagônica. Os cavalos nos levaram para mais perto do Lago Argentino em meio à mata negra, vegetação típica da região. Depois de quase duas horas no lombo do cavalo, Martin, eu e Leonardo – um venezuelano – voltamos à estância para uma rodada de mate com torta frita, um pão caseiro frito na banha. Delícia. A cultura gaúcha é muito forte na Argentina. O hábito de tomar mate nasceu com os índios guaranis, logo ali, na fronteira entre a Argentina, o Brasil e o Paraguai. Os índios cultivavam a erva mate e a bebiam em recipientes confeccionados a partir da cana de açúcar. Não havia bomba, os guaranis usavam os dentes como filtro e, por isso, eram conhecidos como ‘dentes verdes’. Martin é aquele gaúcho que ama o que faz. Suas histórias sobre esse estilo de vida foram uma aula para mim e para o Leonardo.

hostel

hostel

lago argentino e o andes

lago argentino e o andes

gaúcha

gaúcha

leonardo e martin

leonardo e martin

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Ônibus, rodoviária, amanhecer, Patagônia e Ana

As 15 horas entre Bariloche e Comodoro Rivadavia passaram rápido. Dormi bastante e às 6 horas da manhã desembarquei na rodoviária. Às 8, já estava em outro ônibus. Ainda estava escuro. Por aqui, nessa época, o sol começa a se levantar às 8h30, 9 horas. Foi em Comodoro Rivadavia que vi um dos nasceres do sol mais lindos nessa minha vida. A estrada contornava a paisagem árida da Patagônia e o mar do atlântico. Por de trás do mar, nascia um sol colorido, uma mistura de cor de rosa, amarelo e laranja. Um dos pontos altos da jornada. Neste segundo ônibus, foram mais 12 horas até Rio Gallegos, com direito a parada no meio do nada, para um lanchinho, e em diversas cidadezinhas Patagônia afora. Uma delas, Puerto San Julian, estampava uma placa na entrada com todo o orgulho do mundo: Puerto San Julian, onde se rezou a primeira missa em solo argentino.

ônibus em movimento: nascer do sol em comodoro rivadavia
ônibus em movimento: nascer do sol em comodoro rivadavia

Ufa, agora só faltavam mais quatro horas. Desembarquei em Rio Gallegos ainda sem saber o que faria. Sem passagem para El Calafate, não sabia se teria que passar a noite num hostel, na rodoviária, ou se seguiria viagem ao meu destino final ainda naquela noite. O ônibus parou no terminal às 20h15 e o último ônibus para Calafate sairia às 20h30. Corri para o guichê, arrastando a mochila, e consegui comprar a passagem. Pronto! Cansada, com fome e de mau humor – isso eu tenho de sobra às vezes – embarquei no terceiro busão. Lá me recebeu Ana, sentada na poltrona 1. Uma argentina nascida em Buenos Aires e que adotou El Calafate como seu lar há 30 anos. Minha viagem até lá não poderia ter sido melhor, sentada ao lado de pessoa tão interessante que me contou muitas coisas sobre a Argentina e sobre a cidadezinha que eu estava prestes a conhecer. Pintora e professora de desenho, Ana é uma daquelas pessoas passageiras, mas que marcam a gente por algum motivo. O motivo, sem dúvida, foi a sabedoria com que me falava sobre tudo. Me ofereceu carona até o hostel, quando desembarcamos em meio à madrugada gelada da quarta-feira. Mas um taxi pago pelo hostel já me esperava no terminal de ônibus. A Ana fez a minha jornada até El Calafate mais bonita.

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