Odisséia do fim do mundo


Eu não tinha destino certo depois de Ushuaia. A primeira opção, já descartada havia alguns dias, seria ir a Punta Arenas e depois a Puerto Natales (ambas no Chile) e parar para conhecer o Parque Nacional Torres del Paine. O motivo do cancelamento da rota: o clima, que nesta época do ano castiga a região com frio, vento e chuvas intensas. A minha indecisão me fez ficar por mais um dia em Ushuaia, e acabei optando por ir com Monia até Rio Gallegos, a capital da província de Santa Cruz, onde há conexões de ônibus para várias partes do país. De lá, a ideia era seguir para Los Antiguos, uma pequena cidade argentina na fronteira com o Chile para aí então cruzar a fronteira e subir até a região dos lagos chilena. Ideia essa totalmente desaconselhada pelo experiente Armando, um argentino que conhecemos no hostel.

O dia extra em Ushuaia, Monia e eu tiramos para não fazer nada. O tempo estava ruim e ficamos o dia todo no hostel, cozinhando, conversando e atualizando fotos e histórias na internet. Era domingo e no dia seguinte, as cinco da manhã, pegaríamos o ônibus que nos levaria a Rio Gallegos. A noite foi chegando e nos revezamos no cochilo. Ela dormiu das 18h às 21h30 e eu, das 23h as 3h. Ushuaia às 4h30 da manhã é de congelar a alma de qualquer um, mas lá fomos nós. A cidade não tem rodoviária, um pátio ao lado do posto de gasolina na avenida costaneira serve como parada. O ônibus estacionou no terminal improvisado e, para a nossa surpresa, aquele veículo de dois andares confortável que compramos, era uma lata velha, mal cheirosa e gelada. Minhas pernas, eu disse minhas pernas, encostavam no banco da frente. Como não havia muita gente, cada um dos passageiros pegou duas poltronas, catou os cobertores “xexelentos” e se ajeitou da maneira que pode para tentar dormir um pouquinho. É claro que, lá pelas tantas, eu resolvi querer ir ao banheiro. Nada mais natural para uma pessoa como eu. Resolvi tentar. Abri a portinha e não havia luz. Entrei, fechei a porta para ver se acendia e nada…”Ah, eu tenho uma lanterna. Brilhante!”, pensei. Fui até a mochila pegar e voltei para então fazer meu xixi. Não sabia como ainda…segurar a lanterna e fazer xixi ao mesmo tempo não seria uma tarefa fácil. E de fato não foi, porque tive que segurar por mais uma meia hora até, ufa, a primeira parada. Quando acendi a luz da lanterninha só não morri porque sou forte. Não contarei detalhes, mas já é possível imaginar. ”Deve ser por isso que não tinha luz”, falou o americano que estava na poltrona ao lado da minha, quando me viu passar branca por ele.

balsa que atravessa o estreito de magalhães

balsa que atravessa o estreito de magalhães

Bom, depois de três horas, chegamos a Rio Grande e lá fizemos uma conexão com outro ônibus. Dessa vez um pouquinho melhor, até serviram o tal café da manhã e o tal almoço pelos quais pagamos (duas medialunas e dois sanduichinhos). Ushuaia fica numa ilha, a província de Terra del Fuego. Para sair dela é preciso passar por um pedaço do Chile, voltar para Argentina, passar pelo Chile novamente e ainda cruzar o Estreito de Magalhães numa barca. Passamos por quatro aduanas e na primeira delas os passageiros tiveram que descer com todas as bagagens para que tudo fosse revistado. 10 horas depois estávamos em Rio Gallegos. Monia seguiria para El Calafate, 4 horas de viagem, e eu para Los Antiguos, 17 horas na estrada. “Não há ônibus para Los Antiguos hoje e não sabemos quando haverá, pois a estrada está bloqueada”, me disseram no guichê da rodoviária. A outra opção seria voltar a Bariloche e cruzar a fronteira por lá, e eu estava disposta a passar mais 30 horas num busão. “Há muita neve na estrada e as viagens foram canceladas”. Sem pretensão nenhuma de ficar em Rio Gallegos até esperar a liberação das rodovias, voltei a El Calafate. Dessa vez com Monia.

o ônibus, a balsa e o estreito...ventava muito

o ônibus, a balsa e o estreito...ventava muito

onde ficar em Ushuaia:

Hostel Los Cormoranes (Kamshem, 788).

É simples, mas muito confortável. Há quartos compartilhados e duplos. Na baixa temporada, os compartilhados com dois beliches saem por 40 pesos. O café da manhã está incluso e tem café, chá, leite, pão, cereais, ovos, manteiga e geleia. Cozinha, sala de TV e recepção ficam separados dos quartos e dos banheiros. É preciso passar por um quintal para chegar até eles. No frio isso não é muito legal, mas o astral e a ótima cozinha do hostel compensam.

não caia nessa furada:

Ushuaia não tem rodoviária e as passagens de ônibus são compradas em agências. A oficina de turismo indica a Tolkar, mas inform-se e procure outra. Essa foi a que me vendeu o ônibus dos sonhos. Para Punta Arenas ou Rio Gallegos, vá de Marga.

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2 Comentários

Arquivado em Pelo mundo

2 Respostas para “Odisséia do fim do mundo

  1. Que delícia de viagem Rê! Deu uma ponta de inveja hehehe estou anotando as dicas pois quero muito conhecer Usuhuaia e El Calafate.
    Se você for subir pelo Chile, não deixe de conhecer San Pedro de Atacama. E se tiver tempo, vale muito a pena o tour pelo Salar de Uyuni. Uma experiência única!
    Beijos e aproveite a trip
    Rica

  2. Aldemir

    Oi Renata, estou planejando minhas férias de agosto e suas postagem estão me ajudando bastante quanto as decisões sobre os roteiros, parabéns pelo blog, deverei iniciar em ushuaia e de lá subir para el calafate e norte do chile, vc tem idéia dos valores, principalmente das linhas de ônibus que estão compreendidas neste precurso? ushuaia, rio gallegos, el calafate, el chalten, bariloche, puerto montt… santiago rsrs,,, toda informação que vc tiver principalmente quanto a horários e preços, seja de transporte quanto atrações, será bem vindo

    aproveite bem a viagem!

    beijos

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