Arquivo do mês: julho 2009

Argentina, Argentina, Argentina

A Argentina vai deixar saudades. Foi o primeiro país que conheci e amei. Amei cada lugar que fui, cada pessoa que encontrei pelo caminho, cada costume que descobri, cada minuto que passei por aqui. E foram quase três meses. Da cosmopolita, barulhenta e interessante Buenos Aires, às montanhas nevadas e lagos azuis e verdes de Bariloche. Da maravilha mais imensa e impressionante que já vi, em El Calafate, às ruas geladas e paisagens inóspitas de Ushuaia. Dos vinhos e da tranquilidade de Mendoza, ao agito provinciano e a gente muito simpática de Córdoba. E do surpreendente norte, com paisagens áridas, lindas quebradas e outro modo de vida. A Argentina tem de tudo. E tudo é beleza. Mesmo quando a gente cansa um pouco de viajar, afinal de contas, foram cerca de 124 horas dentro de ônibus e três  voando, de norte a sul. Um lugar para voltar. Sempre.

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Iruya antes do adeus à Argentina (estou ficando dramática como os argentinos)

Tiramos o dia, Patricia e eu, para conhecer Iruya, uma vila de 1.500 habitantes de difícil acesso, cercada por montanhas também coloridas. O ônibus que nos levou, como todos por aqui, não estava exatamente em bom estado, mas chegamos. Mais uma vez, a paisagem me surpreendeu. Iruya fica a quatro horas de Tilcara. Saímos cedinho, com um frio de rachar que fez os nosso pés quase congelarem, e chegamos na cidade de Humahuaca em uma hora para trocar de ônibus e viajar mais três horas até o destino final. Depois daí se começa uma subida que chega a 4.000 m. Nesse ponto, de vista deslumbrante, o ônibus (que estava cheio de turistas) parou para uma sessão de fotos. Depois, iniciou uma descida por uma estradinha absurda. Um desfiladeiro que parecia não ter fim. Em estrada de chão, descemos 20 quilômetros. Curvas fechadas: de um lado um penhasco, de outro um paredão de pedra. Pronto, já estávamos em Iruya (2.700 m). Essa sim uma típica vilazinha parada no tempo. As mulheres conservam vestimentas típicas, com muitas saias, flores e cores e quase não se escutam ruídos. As montanhas, desenhadas pelo vento, abraçam o lugarejo por todos os lados. É muito gostoso andar por lá. Um lindo adeus.

caminho para iruya e nosso ônibus

caminho para iruya e nosso ônibus

iruya vista de cima

iruya vista de cima

pracinha principal

pracinha principal

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Norte das mil cores

Minha viagem pela Argentina ainda não havia acabado. A maioria dos mochileiros vai a Salta e, de lá, direto para San Pedro de Atacama, no Chile. Patrícia e eu resolvemos subir um pouco mais, para a província de Jujuy. Escolhemos a pequena cidade de Tilcara, a mais ou menos 80 quilômetros da capital, para nos hospedar. Por que? Simples. Em Jujuy fica a quebrada mais famosa da Argentina, a de Humahuaca. São montanhas coloridas cortadas por vários rios (apesar de ser época de estiagem e os rios estarem praticamente sem água). Tilcara é uma cidadezinha muito simpática e cheia de turistas. Tem um ar meio alternativo. Além dos locais, muitos artesãos se instalaram lá e fazem da arte a sua forma de sustento. É super comum ver músicos sentados animadamente tocando instrumentos no coreto da praça. Mas a cidade, ou vila, mais charmosa é Purmamarca, talvez a mais famosa da região. É lá que está o Cerro de los Siete Colores. As casinhas antigas, muitas de adobe, a praça, a igrejinha e o cemitério parecem parados no tempo embaixo dessa montanha cheia de cores. É fantástico. Me lembrou aquelas garrafinhas com areia colorida que a gente compra na praia. Parece que alguém foi depositando, uma por uma, terra roxa, azul, vermelha. O fenômeno é resultado de formações que se iniciaram ha mais de 75 milhões de anos. Uma pena que escolhemos um dia atípico para visitar. Aconteceu uma tempestade de areia super incomum em toda a região, que escondeu o sol e nos cobriu inteirinhas de poeira. Acho que ainda deve restar alguma coisa no meu cabelo. Voltamos para Tilcara à noite e, logo depois, a cidade ficou às escuras. As vendinhas todas acenderam velas, gente com lanterna pelas ruas e o céu estrelado mais lindo que já vi, já que à noite a poeira baixou. Era um anúncio de como seria o meu último dia na Argentina.

tilcara

tilcara

cerro de los siete colores em purmamarca durante a tempestade de areia

cerro de los siete colores em purmamarca durante a tempestade de areia

Mais:

– Aqui, como já disse no outro post, os costumes parecem ser mais parecidos com os bolivianos. Não se vê mais o mate (chimarrão) por todos os lados e, sim, gente mascando folha de coca todo o tempo.

– Se eu havia me decepcionado com o ônibus que nos levou de Córdoba a Salta foi porque eu ainda não conhecia os ônibus do norte. De San Salvador de Jujuy (capital da província de Jujuy) saem ônibus para todas as cidadezinhas da região. São veículos que não se sabe exatamente como ainda estão em funcionamento. São velhos, barulhentos, desconfortáveis e lotados. É um fazendo lanchinho, outro com quinze sacolas, paradas mil pela estrada. Ufa…mas tudo faz parte da experiência e no final até que foi divertido.

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Salta, la linda, no caminho dos incas

As pessoas, os costumes , as paisagens…tudo muda quando se chega ao norte. Cheguei a Salta no dia 14 de julho. Uma cidade de médio porte, 500 mil habitantes, cheia de história. No século XV, a região foi caminho para os incas, que saíram de Cuzco rumo ao sul passando pela Bolívia, Argentina e Chile; e em direção ao norte, cruzando o Equador até chegar à Colômbia.

cabildo

cabildo

Eu já havia passado por lugares onde os incas estiveram, Mendoza foi um deles, mas em Salta é tudo muito mais vivo. Eles chegaram, colonizaram os povos da região e espalharam as tradições, crenças e o idioma quéchua. Para eles, as montanhas eram consideradas uma proteção e, por isso, construíram lugares sagrados em várias delas, os chamados adoratórios de altura. Na província de Salta, no cume do vulcão Llullaillaco (6.739m), foram encontradas, em 1999, três crianças incas mumificadas. A mumificação de crianças acontecia como forma de adoração à natureza e eram escolhidas, entre todo o Império Inca, as mais bonitas e de famílias abastadas. Hoje, elas estão expostas no Museu de Arqueologia de Alta Montaña, em Salta. Foi a primeira atração que Patrícia e eu fomos visitar na cidade. É impressionante. Vimos a Niña del Rayo, de seis anos de idade.

praça 9 de julho

praça 9 de julho

Ainda tínhamos muita coisa para ver. E embarcamos em duas excursões, uma para a cidade de Cafayate, 180 quilômetros distante de Salta, e outra para Cachi, 130 quilômetros. A principal atração de Cafayate são as bodegas. O lugar se destaca pela produção da variedade de vinho branco Torrontes. Eu não conhecia; provei e não gostei muito. No caminho, fui presenteada com uma paisagem bem diferente das que estava acostumada a ver. Montanhas de pedra esculpidas pelo vento, clima árido e muitas quebradas (um vale estreito). No caminho para Cachi, chegamos a 3.348 m de altura, subindo por uma estradinha sinuosa cercada por montes. A cidade fica a 2.400 sobre o nível do mar, então descemos um pouco e pudemos conhecer o Parque Nacional Los Cardones, o segundo maior parque de cardones (uma espécie de cactos) das Américas. Eles são enormes! Nos primeiros cinquenta anos de vida, esses cactos crescem de 5 a 10 milímetros por ano. Depois que passam dessa idade, aceleram o crescimento. O que valeu da ida para a Cachi foi, sem dúvida, o percurso, que ainda incluiu ainda o Nevado de Cachi (6.300 m) e a vila de Payogasta.

cafayate

cafayate

 

parque nacional los cardones

parque nacional los cardones

Mais:

– Salta é o maior produtor de tabaco da Argentina. Por isso, se pode fumar em todos os lugares públicos. Até o ano passado era permitido acender um cigarro, inclusive, nos saguões dos hospitais. A proibição aconteceu esse ano.

– O trânsito é maluco. Observei o mesmo em Mendoza e Córdoba, mas aqui é demais. Não há quase sinaleiros e preferenciais não existem. Os carros avançam nos cruzamentos sem olhar e se um pedestre estiver na frente, eles passam por cima mesmo.

– A cidade fica num vale, entre a sub e a pré-cordilheira dos Andes, e é muito antiga, foi fundada em 1582, e como todas as grandes cidades de colonização espanhola, gira em torno da praça matriz (nesse caso 9 de julho), que tem o Cabildo de um lado e de outro a Catedral.

– Salta é a capital da província de mesmo nome. A província, junto com Tucumán, Jujuy, Catamarca e Santiago del Estero formam o norte da Argentina. É partir daqui que se pode ver que muito da cultura e dos traços do povo se assemelham à Bolívia.

– Patrícia e eu fcamos no hostel Los Cardones, que é bem simples, mas confortável e bem localizado. A cozinha é horrível, o que nos obrigou a comer fora todos os dias. Se quiser ir a Salta, não se hospede nunca no Hostelling International de lá. São três: Backpapers home, soul e city. São os mais caros e o atendimento é péssimo.

– É da capital salteña que sai o Tren a las Nubes, famoso por percorrer 217 quilômetros até Santo Antonio de Los Cobres. Passa por quebradas, montanhas e chega a 4.200 metros de altitude. A minha primeira ideia quando resolvi conhecer Salta era pegar o dito trem. Ingenuidade a minha, nem sequer entrei no site para reservar a passagem. Resultado: não havia mais lugar para o mês de julho inteiro. Menos mal, porque a passagem custa 140 dólares.

 

 

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Rumo ao norte

Era hora de se despedir de Córdoba e dos amigos e rumar para o norte. Às seis e meia da tarde já estávamos na rodoviária; o ônibus sairia às sete. Dez para as sete e nada do micro encostar no terminal. Fui averiguar na oficina da empresa, a Andesmar, e a atendente, muito solícita, me deu a seguinte informação: – “o ônibus deve chegar em 15 minutos, está um pouco atrasado”. E eu, achando meio estranho: – “ué, mas de onde ele está vindo? – “de Caleta Oliva”, ela disse. – “onde é isso”, perguntei. – “aqui ó”, me informou a moça, apontando para um mapa da Argentina. O ‘aqui ó’ dela era um pouco para baixo de Comodoro Rivadavia, uma das cidades que passei na minha viagem de Bariloche a El Calafate. Isso significa: Patagônia!!!

Enfim chegou o coletivo, com meia hora de atraso, cheio de gente, aquele cheirinho básico de mais de um dia de viagem e sem cobertores. Com televisão e jantar, não posso deixar de dizer. Vimos o bom ‘Dois filhos de Francisco’ (sim, sim) e nos preparávamos para dormir, mas os dois motoristas e o comissário de bordo estavam bastante empolgados e colocaram reggaetom e cuarteto (música típica de Córdoba) para os passageiros. Algumas paradas depois, dormimos. Lá pelas tantas, já de madrugada, acordamos assustadas. Era o comissário de bordo gritando: “passageiros de Tucumán, passageiros de Tucumán!!!! Chegamos ao destino”. (Tucumán é uma importante cidade argentina, foi lá que aconteceu a grande decisão que culminou na independência do país). Voltamos a dormir, eu agora com o meu protetor auricular, e de novo fomos acordadas. Dessa vez para trocar de ônibus. O que estávamos seguiria para Jujuy, quase na divisa com a Bolívia, e teríamos que subir em outro para chegar a Salta. Mas chegamos e daqui escrevo.

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Chegou a irmã

Esqueci do blog por alguns dias, mas voltei! Minha irmã, Patricia, chegou a Córdoba no dia 8 e eu, como uma cordobesa nata, fui mostrar a cidade e apresentar meus amigos para ela. Jantar com Julian e Cari, almoço com Federico e Lucas, passeios pelo centro histórico e, ufa, chega de cidade. O campo nos esperava. Na sexta (dia 10) fomos a Alta Gracia, uma cidadezinha que faz parte das serras de Córdoba. Lá, visitaríamos a Estância Jesuítica (uma das que comentei no post passado) e o museu do Che Guevara. Uma pena, estavam fechados. A causa: cuidados com a gripe A. Aliás, eu até achei que estava com a tal enfermidade quando comecei a sentir dor de garganta e o nariz entupido, mas era só uma rinite um pouco forte. Menos mal.

na peatonal

na peatonal

fachada da estancia jesuitica

fachada da estancia jesuitica

Enfim, acabamos não conhecendo nem a estância e nem o museu que conta um pouco da história do Che em Alta Gracia. Seus pais mudaram-se com ele para lá por causa do clima, que o ajudaria no tratamento da asma. De fato ajudou e melhorou também a minha alergia. O final de semana nos reservava mais um passeio nas serras, desta vez em Santa Rosa de Calamuchita, a convite de Julian e Cari. Conhecemos La Cumbrecita, uma vila alemã aos pés de um morro, onde só se pode entrar caminhando. Carros são proibidos. As ruas são de pedra ou terra, as casas são todas no estilo alemão e a natureza é exuberante. Muito verde, lagoas e cachoeiras. O lugar ainda é bem isolado e era mais ainda na década de 40, quando chegaram os primeiros imigrantes e fundaram o povoado.

Mas o que valeu mesmo foi a companhia. Conhecer Córdoba de uma maneira não tão turística, com Julian, Cari, Adrián e Monica (os servas que me receberam tão bem), foi muito mais fascinante.

la cumbrecita

la cumbrecita

rio em frente à casa de campo do julian, em santa rosa

rio em frente à casa de campo do julian, em santa rosa

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Hospitalidade regada a fernet com coca

Córdoba não estava n0s meus planos, mas na quinta, dia 2, c0mprei uma passagem para a cidade, embarquei no ônibus e disse adeus a Mendoza e às pessoas maravilhosas que conheci lá, principalmente Luis e Lorena. Optei por vir para esperar minha imã, que decidiu se juntar a mim e virá de Curitiba direto para cá.
Em Córdoba me esperava Julian, um engenheiro civil de 25 anos. Minha terceira experiência no servas, aquele programa de ‘intercâmbio’ cultural do qual faço parte. Eu iria ficar duas noites na casa dele. Me deixou as chaves do apartamento e seguiu para o trabalho. Eu fui conhecer a cidade. Caminhei bastante pelo centro, um lugar que respira história. Os jesuítas chegaram aqui em 1599 (a cidade foi fundada em 1573) e, em 1613, fundaram a primeira universidade da Argentina (hoje, Universidad Nacional de Córdoba). Atualmente, Córdoba é conhecida como uma cidade universitária e jovens de toda a Argentina e também de fora vêm estudar aqui.
peatonal

peatonal

vale, cari, ale e julian. uma prévia con fernet com coca antes da baladinha

vale, cari, ale e julian. uma prévia con fernet com coca antes da baladinha

Depois do meu passeio por ruas históricas, parques e museus, a noite cordobesa – famosa por todo o país – me esperava. Saí com Carina, namorada de Julian, e Valéria para Nueva Córdoba, o bairro dos barzinhos. Mas não sem antes fazer uma ‘previa’ (o nosso famoso esquenta) regada a “asado” e muito fernet com coca-cola (o fernet é uma bebida originalmente italiana, com gosto de remédio, que faz o maior sucesso por aqui). As meninas fizeram uma excursão comigo por alguns bares do bairro. Como não se paga para entrar, entramos e saímos de vários. E elas sempre iam me contando qual era bom, quem frenquentava…essas coisas da juventude que eu nem lembrava mais. Na realidade todos me pareceram iguais; sempre a mesma música: reggaetom. Eles amam isso aqui! Mais um pouquinho de cidade e baladas no sábado e, no domingo, montanhas! Fui dormir às 5h30 da manhã e me levantei às 8h30 para ir à Villa Caiero, agora com outros servas: a família de Adrian e Mônica. Me levaram para conhecer lugares lindos que ficam pertinho da cidade, cerca de 50 quilômetros. Comemos asado com empanadas na casa de amigos deles e vimos o entardecer no campo. Uma delícia!

Os cordobeses são extremamente simpáticos e acolhedores e têm um sotaque muito peculiar: falam cantado. Desviei um pouco do meu caminho, mas está valendo a pena.

O interessante não é só conhecer a cidade, muito bonita, mas descobri-la e aprender coisas novas com as pessoas que vivem aqui. É uma experiência totalmente diferente das que tenho tido quando me hospedo em hostels.

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Mais…

– Córdoba é também famosa pelas estâncias jesuíticas. Além da Manzana Jesuítica, localizada no centro, há cinco estâncias, todas na região das serras: Alta Gracia, Santa Catalina, Jesus Maria, Caroya e Candelária.

– O centro da cidade está cheio de ruas onde não passam carros. São as peatonais…Nelas se pode caminhar tranquilamente, são ótimas.

– Não se pode vir a Córdoba e não tomar fernet com coca, é uma tradição por aqui. Eu não gostava, mas a bebida preparada por um cordobes é outra coisa. Outra delícia daqui é o criollito, uma espécie de bolinho salgado feito com ovo, farinha e água. Como todo dia.

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