Uma história


Elisabeth trabalha no Cafe 8, o restaurante em que trabalhei por dois meses. Saiu de El Salvador há um ano e meio. Motivo: tentar uma vida melhor nos Estados Unidos. Pode ser uma história comum, já que todos os dias centenas de ilegais cruzam a fronteira entre o México e os Estados Unidos justamente para “tentar uma vida melhor”. Certamente quase todo mundo já leu sobre o assunto: gente pobre, coiotes, deserto, fronteira, polícia. Eu nunca tinha conhecido ninguém que tivesse se arriscado dessa forma para vir morar por aqui.

No Cafe 8 eu conheci a Elisabeth, a Blanca e o Jesus. A Elisabeth me contou a sua história. Ela ganhava 100 dólares por mês trabalhando na cozinha de um restaurante de uma pequena cidade salvadoreña. Aos 27 anos, tinha um marido e um filho – que nasceu quando ela tinha 19. O marido foi assassinado quando voltava do trabalho para casa. Seguindo os passos da irmã, que mora em DC há cinco anos, Elisabeth – então grávida de 4 meses – deixou o filho e embarcou numa viagem de quase dois meses cruzando o seu país, a Guatemala e o México.

Elisabeth

Ela conta que já na fronteira entre a Guatemala e o México foi pega por policiais mexicanos, que ameaçaram deportá-la de volta para El Salvador. O jeito: subornar a lei (policias fronteiriços são super corruptos no México). No caminho entre o México e os Estados Unidos enfrentou ainda mais desafios: subiu em uma caminhonete com mais 50 imigrantes, quase todos escondidos em baixo dos bancos. Viajaram quilômetros e quilômetros assim, abaixados para não serem vistos pelos oficiais americanos. Foram assaltados por ladrões mexicanos, que se escondem no deserto justamente para atacar os ilegais e roubar o pouco dinheiro que ainda lhes resta. Tudo isso lhe custou 7 mil dólares. Um dinheiro que ela não tinha (e ainda não tem), mas que teve que pagar a vista para que os coiotes mexicanos a atravessassem. Para isso fez um empréstimo a irmã.

Hoje, com 29 anos, Elisabeth ganha cerca de 700 dólares por mês. Trabalha na cozinha e ajuda os garçons a limpar as mesas e servir os clientes. Não fala inglês e ainda está pagando o empréstimo de 7  mil dólares a irmã. Deu à luz a uma menina, mas aos seis meses a mandou de volta para El Salvador por uma senhora que vem e vai todo o mês levando e trazendo encomendas, fotos e crianças. No dia 23 de abril sua filha completou um ano. Ela estava triste por não poder estar perto nessa data tão importante. “Mas a senhora mensageira vai me trazer umas fotos dela”, me disse.

Perguntei se tudo isso valeu e continua valendo a pena. A resposta foi afirmativa e ela faria tudo de novo se precisasse. Elisabeth é uma dos cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem por aqui. (estimativas de 2008 do Center of Immigration Studies. De acordo com o Pew Research Center, 57% são mexicanos e 24% de outras partes da América Latina, primordialmente de países da América Central).

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1 comentário

Arquivado em Pelo mundo, washington DC

Uma resposta para “Uma história

  1. Olga

    Surreal, Rê. Vou comprar seu futuro livro depois desta sua volta pelas Américas… Cuide-se! Um beijo

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